“Mateluna” – Por uma estética da Resistência, no Teatro Maria Matos

Peça Mateluna no Teatro Maria Matos

A peça Mateluna que o dramaturgo chileno Guillermo Calderón traz ao palco do Teatro Maria Matos estreou em outubro de 2016 em Berlim no festival “A estética da Resistência – Peter Weiss 100”.

A peça, política, conta a história de Jorge Mateluna, um guerrilheiro chileno preso perto de um local onde ocorreu o assalto a um banco. Logo no início da peça, uma atriz adverte os espectadores que todos os factos são reais.

Condenado a 16 anos de prisão por alegada participação no assalto, diz-se inocente.
No primeiro ato, Jorge é apresentado ao público como “alguém tão idealista que matava pondo bombas”, por outro lado, desanimado ao ponto de dizer: “da primeira vez que estive preso discutíamos a Liberdade; na segunda vez as conversas entre presos são sobre o melhor carro do ano. Matávamos reis, matávamos milionários, agora fazemos ameaças na internet”. Conclui o grupo de atores que alguém assim ou acaba preso ou morto.

Ainda neste ato, é aprofundada uma discussão sobre a estética da resistência e a legitimação da violência em determinados contextos.

Jorge nunca é separado do seu ato violento. E os artistas? Que papel tem o Teatro numa cultura de rebelião?

No segundo ato, o teatro documental e o trabalho com os factos. Como se de um segundo julgamento se tratasse, os atores desmontam a tese da polícia, as mentiras do processo e absolvem Jorge Mateluna, mas ele continua preso. Tem no cadastro ter sido um opositor da ditadura, um guerrilheiro da Liberdade, um lutador contra o sistema vigente.

A Democracia não o absolveu do seu pecado; havendo um crime é de certeza o culpado. Sabe usar armas e organizar assaltos a bancos, mas desta vez é inocente. Os atores confessam a dada altura, que quando o souberam preso acreditaram que tivesse sido ele, mas quando o visitaram na prisão ficaram com a certeza que era inocente.

Guillermo Calderón estreou-se em 2006 com a pela “Neva” e é hoje um dos mais aclamados dramaturgos chilenos. A sua obra é marcada pela reflexão sobre o compromisso dos artistas com os conflitos sociais. Política pois.

Como tem dito em entrevistas, sobre o seu país e o mundo: “La crisis es de los políticos, pero no es el país entero que está en crisis.” ( a crise é dos políticos, mas não é o país inteiro que está em crise)

Esta peça insere-se na programação do ciclo “Utopia” (que este ano comemora o centenário da Revolução Russa de 1917) a decorrer na temporada 2016/2017 do Teatro Maria Matos.
“Mateluna”

Onde: Teatro Maria Matos
Quando: 15 a 17 de Fevereiro 2017 | Quarta a sexta, 21:30
Preço: €14 (com descontos €5 a €7)
Duração: 80 minutos sem intervalo

Texto: Márcio Fonseca

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