“A Noite da Iguana”: angústias de um homem preso no alpendre, no Teatro São Luiz

A Noite da Iguana | onde lisboa

– Há iguanas que arrancam as pontas das caudas à dentada quando estão atadas pelo rabo.
– Esta está atada pelo pescoço. Não pode arrancar a cabeça à dentada para escapar da corda. 

Que corda seria essa que Tennessee Williams referia em A Noite da Iguana”, peça que está em cena no Teatro Municipal São Luiz até 5 de Fevereiro. Os Artistas Unidos terminam aqui a revisitação da obra do dramaturgo norte-americano, depois de terem apresentado “Gata em Telhado de Zinco Quente”, “O Doce Pássaro da Juventude” e “Jardim Zoológico de Vidro”.

O encenador Jorge Silva Melo optou por manter a peça no contexto original: em 1940, no auge da Segunda Grande Guerra. Após os bombardeamentos de Londres, e num período de ascenção nazi na Europa, a peça conta a história do reverendo Shannon (interpretado por Nuno Lopes) afastado do sacerdócio devido a um escândalo sexual, obrigado agora a ser guia turístico no México.

“A Noite da Iguana” divide-se em duas partes, sendo a primeira marcada pela tensão sexual em torno do reverendo, vinda da viúva (Maria João Luís, a dona da pensão) e da jovem com quem Shannon se envolvera (Catarina Wallenstein). Na segunda parte, o espectador assiste a um duelo verbal entre o protagonista e Hannah (Joana Bárcia), pintora de aguarelas vestida de kimono azul (opção do dramaturgo ou do encenador?).

Shannon, cujos traços psicológicos o colocam na linha de outras personagens do universo deste autor (marcadamente violentas e auto-destrutivas), só pensa em voltar a ser padre. É sobretudo a pensar nas contradições do ser humano e na inquietação constante do protagonista que a peça é dirigida. A iguana está sempre presente, presa no alpendre. Tal como está Shannon.

O grupo de atores em palco faz jus ao nome da Companhia: unidos. Artistas Unidos, porque quem acompanhou as outras peças deste ciclo dedicado a Tennessee Williams viu atores e atrizes representarem diferentes papéis, de maior ou menor destaque. Unidos sob a orientação de Jorge Silva Melo. Com textos de qualidade, boas interpretações e encenação sabedora se garantem salas cheias.

No tempo conturbado que vivemos, assistindo à “Noite da Iguana” pensamos nas frequentes aparições dos hóspedes alemães embriagados que festejavam a vitória na Guerra, mesmo que efémera. Quem festeja agora e por quanto tempo? Voltemos à corda atada no pescoço da iguana: arrancará ela a cabeça?


“A Noite da Iguana”
Onde
: Teatro São Luiz
Quando: 18 Janeiro a 5 de Fevereiro | Quarta a sábado, 21:00; domingo, 17:30
Preço: €12 a €15 (com descontos €5 a €10,50)
Duração: 2h30 com intervalo

Texto do redator: Márcio Fonseca

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