Palhaço pobre faz traquinices a palhaço rico

O espetáculo de circo decorreu numa tenda instalada no jardim do Museu da Cidade no Campo Grande. Antes de começar o público esperou do lado fora, junto a uma banca de farturas, algodão doce e pipocas. Dois palhaços-toureiro confraternizam cá fora. Um estranho personagem vagueia no jardim. Nos altifalantes toca o tradicional genérico que acompanha os números de palhaços só que em vez de “meninos e meninas, o maior espetáculo do Mundo”, repete até à exaustão “palhaço rico fode palhaço pobre”.

Parecem todos iguais e tenho a certeza que se abrirmos a cabeça de cada um deles lá dentro está tudo igual

No primeiro monólogo, o intérprete deixa logo um aviso ao público: “estão chateados por perceberem que não há empatia possível entre o espetáculo e o público? Nós os palhaços estamos sozinhos”. Mas não estavam, trouxeram convidados: o homem-forte, os acrobatas (“as sereias”), cuspidores de fogo, a cantora-careca, o ventríloco e a sua boneca Norma. Tudo como no circo, sem freaks e sem animais como fizeram questão de realçar. Mas não era assim e o texto, forte, continuou “neste circo somos todos convictamente anormais e vocês são todos convictamente politicamente corretos. Podem não gostar mas não o vão dizer porque eu sou gorda e aqueles dois palhaços são paneleiros.”

Sob a forma de um espetáculo de circo tradicional, foi apresentado ao público um texto que se assume crítico com a sociedade atual. Está lá tudo: a manipulação das massas, a sociedade consumista, o politicamente correto, a hipocrisia, o poder da TV e os reality shows, o pensamento único, a intolerância com o que é diferente, as rotinas. Os palhaços são neste espetáculo a consciência crítica. O público ri-se, reconhece-se, é obrigado a pensar. “Nós somos a carpideira contratada para chorar o vosso morto enquanto vocês dividem a herança. Quando olham para um pobre na rua e seguem e depois são voluntários no Banco Alimentar ou assinam uma petição no Facebook.”

Os palhaços existirão enquanto houver riso

Quando em 1970, Fellini realizou “Os Palhaços” (assumidamente uma das inspirações deste espetáculo) também pretendeu representar o circo como “metáfora da vida”. De então para cá, a metáfora ficou mais nítida: o pão e o circo e as desigualdades sociais representadas no binómio “palhaço-rico / palhaço-pobre” acentuaram-se.

Enquanto teorizavam sobre a história do circo, a importância da linguagem e da Arte como elemento libertário e de contra-poder (“O envolvimento do artista com as estruturas  capitalista é desvantajoso para o artista porque o obriga a produzir coisas para sobreviver”), apareceram em cena elementos que sinalizaram e ilustraram o que se está a explicar: o leilão de estruturas capitalistas simbolizadas por duas mesas de centro adquiridas por 10 milhões de euros ou uma empreendedora vítima da SSA “Síndrome de Sucesso Agressivo”.

Make circus great again

 

 

 

 

 

 

 

O espaço onde foram ditos os textos teve um papel importante na narrativa. Ao centro, os números  de circo e os textos, em cada uma das extremidades um palco (um deles ocupado pela responsável do som e da música; o outro onde foram apresentados os atores) com duas grandes “caras” de palhaço olhando-se de frente. Faziam de juízes do que ali era dito ou confrontavam-se uma à outra?

Serão essas as caras do palhaço-rico e do palhaço-pobre? A tenda, pequena, permitiu que o público estivesse perto (às vezes dentro) do espetáculo. E quando não fisicamente, o texto levou-o para lá.

 

“Este espetáculo não é para pessoas que já morreram ou ainda não nasceram ou vivem como se já estivessem mortos. Não é para quem confunde Arte com indústrias culturais valor com lucro ou ética com moral”.

Integrado na programação da BoCa – Bienal de Arte Contemporânea (na sua 1ª edição) promove a discussão e a interação com o espaço público. As próximas exibições ocorrerão nos dias 7 e 8 de Abril no Porto.

 

Onde: Museu da Cidade de Lisboa
Quando: 31 de Março a 2 de Abril
Conceção do espetáculo: João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira
Programação: Pode ser consultada no sítio da BoCa – Bienal de Arte Contemporânea

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