Gomorra – ante-estreia da segunda temporada na Festa do Cinema Italiano

A 2ª temporada da série Gomorra fez a sua ante-estreia em Portugal (naquele que foi um dos pontos altos da 10ª edição da Festa do Cinema Italiano) no passado sábado nos Cinemas UCI El Corte Inglês, com a exibição dos primeiros dois episódios. A sessão contou com a presença dos protagonistas Marco d’ Amore e Salvatore Esposito. À semelhança do que aconteceu na 8ª edição, todos os episódios da segunda temporada serão exibidos na edição deste ano da Festa do Cinema Italiano. Em data a anunciar, será transmitida na RTP2.

O sucesso da série não se prende só com a descrição da realidade local mas com as dinâmicas psicológicas envolvidas

No início do primeiro episódio da segunda temporada vemos Gennaro (Salvatore Esposito) no hospital à beira da morte. Don Pietro evadido da prisão está escondido planeando a recuperação do seu império. Ciro (Marco d’ Esposito) e Salvatore Conte tomam o poder.

Na primeira temporada Don Pietro foi preso e fingiu-se de louco para conseguir fugir da prisão. Ficou na liderança da organização Gennaro, seu filho, um jovem mimado e imaturo, deixando para trás aquele que se julgava herdeiro natural de Don Pietro “Ciro, il Imortalli” como se referiam a ele várias vezes. Criado por Don Pietro, caracterizava-se por ser duro e cruel. A única vez que o vimos com medo foi numa cena no seu apartamento em que a sua mulher e a sua filha estão em perigo (mesmo os imortais têm pontos fracos). O “braço” de Don Pietro (“a cabeça”). Com a mudança de poder foi relegado para segundo plano na hierarquia da organização e começou  a sua tentativa de escalada ao poder deixando no final Gennaro às portas da morte. O argumento é muito bem escrito e leva o espetador por vários caminhos, incluindo o de Ciro ser um agente da polícia (que o ator nos desmentiu hoje).

No final da exibição dos dois primeiros episódios, os atores responderam a algumas questões do público e falaram com o Onde Lisboa. Sobre a aceitação desta segunda temporada dizem ter sido melhor ainda que a primeira quer em Itália quer nos outros países (EUA, França) onde está em exibição. Referem ainda que a qualidade da série é unânime e abrangente, agradando à crítica e ao grande público, coisa que nem sempre acontece.

O sucesso, dizem,  “não se prende só com a descrição da realidade local (Nápoles) mas também com as dinâmicas psicológicas envolvidas”. Nestes dois episódios vimos as relações de Ciro e a esposa (dinâmica entre o marido que só pensa em subir no poder apesar disso criar problemas familiares) e de Pietro e Gennaro (um pai que não se apercebe que o filho cresceu, mudou  e que só quer ser reconhecido). São estes temas, “acreditamos, que tornam a série apelativa em todos os países em que foi distribuída“.

Existe uma Gomorra em cada um de nós e em cada lugar

 

Quando questionados  sobre o papel dos atores no processo de devolução da realidade respondem que acreditam na capacidade do público completar a mensagem da obra de arte. “Esta série (baseada num livro best-seller mundial de Roberto Saviano) retrata uma realidade geográfica própria, mas não é apenas isso, existe uma Gomorra em cada um de nós e em cada país. É nesse aspeto que reside a identificação que cada um pode fazer.”

Sobre a juventude em Nápoles e o crescimento nesse ambiente tão difícil, afirmam ter optado pelos valores superiores da Arte e tiveram sorte na escolha do futuro que queriam, mas nem toda a gente conseguiu. Umas vezes pela ausência das famílias, outras vezes pela ausência do Estado. Marco diz ter desenvolvido uma aptidão para detectar determinadas presenças, mas refere que para além dos mafiosos tradicionais, existem formas de máfia mais dificilmente detectáveis. “Se se lembrarem da primeira temporada, um dos episódios mais violentos para mim (e não tem tiroteio) é quando aparece um advogado do norte de Itália a lavar dinheiro sujo da Gomora. As pessoas que fazem negócios com a Gomorra são também gomorristas e por vezes os nomes que usamos para os designar não são os mais corretos. Um empresário que deposita lixo tóxico no território da Campânia é também um gomorrista não apenas alguém que está a infringir a lei.”

Sobre a experiência de filmar em Nápoles contam não ter sido perigoso ou difícil. A diferença em relação a Roma, o centro do cinema em Itália e onde as pessoas estão habituadas a ver filmagens, é que em Nápoles há sempre alguém do sítio onde estão a filmar que leva comida ou o típico café. “Houve muito café nestas filmagens!”, convergem.

Sobre o curso que a trama vai tomar, deu para ver nestes dois episódios que a violência que caraterizou a primeira temporada continua bem presente bem como a força das relações familiares. Questionados sobre se a “vingança” vai ser o foco principal da narrativa, dizem que é só uma das partes: também vão ser realçados as questões de afirmação (Gennaro em relação a seu pai Don Pietro) e a recuperação do poder e do império por parte de Don Pietro.

Lisboa é uma cidade belíssima

 

Sobre Lisboa, Salvatore diz que foi a sua primeira vez cá, diz ser “belíssima” e com grandes silêncios (que só são interrompidos pela presença dos turistas), elevada educação cívica e confessou ter adorado os “bolinhos de bacalao, bom bom bom!” que comeu depois do passeio de 10 quilómetros que Marco lhe obrigou a fazer! Ficou por saber onde.

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